{"id":15749,"date":"2022-10-13T21:07:29","date_gmt":"2022-10-14T00:07:29","guid":{"rendered":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/?p=15749"},"modified":"2023-03-20T12:20:01","modified_gmt":"2023-03-20T15:20:01","slug":"as-bases-existenciais-da-ceramica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/as-bases-existenciais-da-ceramica\/","title":{"rendered":"&#8220;Cer\u00e2mica e sua rela\u00e7\u00e3o com t\u00e9cnica, simbolismo e funcionalidade na abordagem junguiana&#8221;"},"content":{"rendered":"<div class=\"fusion-fullwidth fullwidth-box fusion-builder-row-1 fusion-flex-container nonhundred-percent-fullwidth non-hundred-percent-height-scrolling\" style=\"--awb-border-radius-top-left:0px;--awb-border-radius-top-right:0px;--awb-border-radius-bottom-right:0px;--awb-border-radius-bottom-left:0px;--awb-flex-wrap:wrap;\" ><div class=\"fusion-builder-row fusion-row fusion-flex-align-items-flex-start fusion-flex-content-wrap\" style=\"max-width:1248;margin-left: calc(-4% \/ 2 );margin-right: calc(-4% \/ 2 );\"><div class=\"fusion-layout-column fusion_builder_column fusion-builder-column-0 fusion_builder_column_1_1 1_1 fusion-flex-column\" style=\"--awb-bg-size:cover;--awb-width-large:100%;--awb-margin-top-large:0px;--awb-spacing-right-large:1.92%;--awb-margin-bottom-large:0px;--awb-spacing-left-large:1.92%;--awb-width-medium:100%;--awb-spacing-right-medium:1.92%;--awb-spacing-left-medium:1.92%;--awb-width-small:100%;--awb-spacing-right-small:1.92%;--awb-spacing-left-small:1.92%;\"><div class=\"fusion-column-wrapper fusion-flex-justify-content-flex-start fusion-content-layout-column\"><div class=\"fusion-text fusion-text-1\"><p>Ol\u00e1 pessoal!<\/p>\n<p>Eu estou postando hoje o conte\u00fado modificado do segundo cap\u00edtulo de minha monografia &#8220;arteterapia de abordagem junguiana &#8211; a t\u00e9cnica do cuidado na cer\u00e2mica&#8221;. <\/p>\n<p>Nela, eu escrevo sobre a cer\u00e2mica e sua rela\u00e7\u00e3o com a t\u00e9cnica, simbolismo e funcionalidade.<\/p>\n<p>Espero que gostem!<\/p>\n<\/p>\n<h2>Defini\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<\/p>\n<p>Vamos agora apresentar duas defini\u00e7\u00f5es para a palavra cer\u00e2mica.<\/p>\n<p><span style=\"color: var(--awb-text-color); font-family: var(--awb-text-font-family); font-size: var(--awb-font-size); font-style: var(--awb-text-font-style); font-weight: var(--awb-text-font-weight); letter-spacing: var(--awb-letter-spacing); text-align: var(--awb-content-alignment); text-transform: var(--awb-text-transform); background-color: var(--awb-bg-color);\">Rhodes define cer\u00e2mica como &#8220;a arte de fazer objetos permanentes de utilidade e\/ou beleza por tratamento t\u00e9rmico a partir de mat\u00e9rias-primas terrosas&#8221;.<\/span><\/p>\n<p>Ap\u00f3s o processo de queima, o barro tem a sua estrutura qu\u00edmica irreversivelmente alterada n\u00e3o podendo, assim, ser reciclado. Al\u00e9m disso, o que antes era um material quebradi\u00e7o e fr\u00e1gil torna-se muito resistente e dur\u00e1vel. Sobre esse material criado pelo homem, n\u00f3s criamos nossas pe\u00e7as que seguem padr\u00f5es de beleza espec\u00edficos de uma civiliza\u00e7\u00e3o e que, muitas vezes, s\u00e3o feitas para cumprir certo objetivo utilit\u00e1rio.<\/p>\n<p>J\u00e1 segundo o dicion\u00e1rio etimol\u00f3gico, a palavra nos leva ao seguinte significado: \u201centre os antigos gregos, vaso de barro cozido \u00e0 mesa\u201d. <\/p>\n<p>Esta defini\u00e7\u00e3o refor\u00e7a a interpreta\u00e7\u00e3o de Rhodes de argila transformada pelo fogo, adicionando a ela a o seu cen\u00e1rio natural: o ambiente dom\u00e9stico. N\u00e3o h\u00e1 como pensar em cer\u00e2mica sem levar em conta sua fun\u00e7\u00f5es utilit\u00e1rias, est\u00e9ticas e simb\u00f3licas e essa rela\u00e7\u00e3o ser\u00e1 o que discutiremos adiante.<\/p>\n<\/p>\n<h2>Base existencial da Cer\u00e2mica<\/h2>\n<\/p>\n<p>Para Rawson, a avalia\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea das obras de cer\u00e2mica recaem no crit\u00e9rio est\u00e9tico puro ou funcional. Por\u00e9m, ambas abordagens s\u00e3o inadequadas j\u00e1 que somente pelo vi\u00e9s do funcionalismo n\u00e3o conseguimos explicar as inumer\u00e1veis formas e varia\u00e7\u00f5es das pe\u00e7as que cumprem a mesma fun\u00e7\u00e3o. O esteticismo, por outro lado, por se concentrar na pura beleza da obra em cer\u00e2mica se esquece que ela sempre esteve intimamente conectada \u00e0 sua natureza utilit\u00e1ria. <\/p>\n<p><span style=\"color: var(--awb-text-color); font-family: var(--awb-text-font-family); font-size: var(--awb-font-size); font-style: var(--awb-text-font-style); font-weight: var(--awb-text-font-weight); letter-spacing: var(--awb-letter-spacing); text-align: var(--awb-content-alignment); text-transform: var(--awb-text-transform); background-color: var(--awb-bg-color);\">O autor nota que a cer\u00e2mica, desde os prim\u00f3rdios, foi usada pelo homem para a melhoria das suas condi\u00e7\u00f5es de vida. Segundo ele, <\/span><span style=\"color: var(--awb-text-color); font-family: var(--awb-text-font-family); font-size: var(--awb-font-size); font-style: var(--awb-text-font-style); font-weight: var(--awb-text-font-weight); letter-spacing: var(--awb-letter-spacing); text-align: var(--awb-content-alignment); text-transform: var(--awb-text-transform); background-color: var(--awb-bg-color);\">apesar dos diversos usos que a humanidade tem dado a ela, desde as urnas funer\u00e1rias at\u00e9 est\u00e1tuas de deuses, a fun\u00e7\u00e3o de conter bebidas ou comidas tem sido a mais importante e &#8220;a rela\u00e7\u00e3o constante com a comida provavelmente desempenhou o papel mais vital em conferir \u00e0 cer\u00e2mica de sua caracter\u00edstica simb\u00f3lica especial&#8221;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-align: var(--awb-content-alignment); background-color: var(--awb-bg-color);\"><font color=\"rgba(0, 0, 0, 0)\" face=\"var(--awb-text-font-family)\"><span style=\"font-style: var(--awb-text-font-style); font-weight: var(--awb-text-font-weight); letter-spacing: var(--awb-letter-spacing); text-transform: var(--awb-text-transform); color: rgb(54, 33, 43);\">Pela fun\u00e7\u00e3o que se tem dado \u00e0 <\/span><\/font><span style=\"color: rgb(54, 33, 43);\">cer\u00e2mica<\/span><font color=\"rgba(0, 0, 0, 0)\" face=\"var(--awb-text-font-family)\"><span style=\"font-style: var(--awb-text-font-style); font-weight: var(--awb-text-font-weight); letter-spacing: var(--awb-letter-spacing); text-transform: var(--awb-text-transform); color: rgb(54, 33, 43);\"> atrav\u00e9s da hist\u00f3ria podemos comprovar que esse material t\u00eam consistentemente servido \u00e0 humanidade de maneira utilit\u00e1ria e, apesar dos seus diversos usos, o de servir como recipiente para bebidas e comidas tem sido sua raison de vivre. Por\u00e9m, ao conjuntamente a desta ess\u00eancia da cer\u00e2mica notamos que a ela foram dados valores subjetivos.<\/span><\/font><\/span><\/p>\n<p>Podemos explicar a presen\u00e7a destes conte\u00fados simb\u00f3licos na cer\u00e2mica pelo fato de que ela \u00e9 o resultado da transforma\u00e7\u00e3o de um elemento natural (barro) em algo essencialmente criado. Por ser um produto da criatividade, ela produziu no ser humano um senso de auto-realiza\u00e7\u00e3o que, desde a sua origem na era neol\u00edtica, criou um senso de separa\u00e7\u00e3o das coisas criadas pelo homem do restante do mundo natural. Assim, os objetos cer\u00e2micos possuem valor simb\u00f3lico porque s\u00e3o um meio de express\u00e3o dos conte\u00fados internos de seus criadores.<\/p>\n<blockquote>\n<p>Para seus criadores e usu\u00e1rios elas (as cer\u00e2micas) sempre foram uma esp\u00e9cie de revela\u00e7\u00e3o em uma via de m\u00e3o dupla, primeiro do homem para si mesmo como agente criativo e de trabalho independente e segundo, do mundo para o homem como um meio, imbu\u00eddo da &#8216;realidade&#8217;, que ele \u00e9 capaz de transformar. Um pote, portanto, &#8216;cont\u00e9m&#8217; tanto a realidade dos materiais e do processo, quanto as realidades internas do senso de identidade do homem em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio mundo de significados.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Essa caracter\u00edstica da cer\u00e2mica de possuir, ao mesmo tempo, valor utilit\u00e1rio e simb\u00f3lico fez com que ela fosse utilizada tanto na esfera mundana como religiosa, como \u00e9 ressaltado por Neumann:<\/p>\n<blockquote>\n<p>Se encontramos os vasos sagrados n\u00e3o s\u00f3 na El\u00eausis grega e nas vestais romanas, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica do Sul, especificamente no Peru, e em Daom\u00e9, na \u00c1frica, estando estes sob a espec\u00edfica cust\u00f3dia das sacerdotisas, essa institui\u00e7\u00e3o assenta-se, ent\u00e3o, no fundamental significado simb\u00f3lico e sociol\u00f3gico do pote.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por mil\u00eanios, ela acompanha os nossos h\u00e1bitos e est\u00e1 presente nas nossas casas, templos, nos locais de trabalho&#8230; Elas s\u00e3o as testemunhas an\u00f4nimas do nosso dia-a-dia. Dessa origem simples mas permeada de valores simb\u00f3licos fizeram com que ela tivesse presen\u00e7a em quase todas as atividades humanas e a partir dessa rela\u00e7\u00e3o com a humanidade que uma est\u00e9tica pr\u00f3pria a ela foi criada.  Por isso, elas t\u00eam a capacidade, talvez melhor que as outras formas de express\u00e3o criativa, de preencher o vazio que sentimos entre a arte e a nossa vida cotidiana.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<ul>\n<\/ul>\n<\/div><div class=\"fusion-image-element\" style=\"--awb-caption-title-font-family:var(--h2_typography-font-family);--awb-caption-title-font-weight:var(--h2_typography-font-weight);--awb-caption-title-font-style:var(--h2_typography-font-style);--awb-caption-title-size:var(--h2_typography-font-size);--awb-caption-title-transform:var(--h2_typography-text-transform);--awb-caption-title-line-height:var(--h2_typography-line-height);--awb-caption-title-letter-spacing:var(--h2_typography-letter-spacing);\"><span class=\"fusion-imageframe imageframe-none imageframe-1 hover-type-none\"><img decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"1000\" alt=\"artisan making pottery in ancient Egypt\" title=\"artisan making pottery in ancient Egypt\" src=\"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt-1000x1000.png\" class=\"img-responsive wp-image-16040\" srcset=\"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt-200x200.png 200w, https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt-400x400.png 400w, https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt-600x600.png 600w, https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt-800x800.png 800w, https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/artisan-making-pottery-in-ancient-Egypt.png 1024w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 1000px\" \/><\/span><\/div><div class=\"fusion-text fusion-text-2\"><h2><\/h2>\n<h2>A T\u00e9cnica na Cer\u00e2mica<\/h2>\n<\/p>\n<p>A diferencia\u00e7\u00e3o que o homem realizou entre ele e a natureza propiciando a cria\u00e7\u00e3o da cer\u00e2mica, por exemplo, surgiu pelo uso da t\u00e9cnica. A t\u00e9cnica, segundo Ortega y Gasset, surge como um instrumento do homem para n\u00e3o s\u00f3 suprir as suas necessidades b\u00e1sicas, comuns aos animais, mas tamb\u00e9m para atender ao seu bem-estar, sendo &#8220;a rea\u00e7\u00e3o en\u00e9rgica contra a natureza ou circunst\u00e2ncia, rea\u00e7\u00e3o essa que cria entre a natureza e o homem uma nova natureza&#8221;. Neste movimento para criar a sua pr\u00f3pria natureza, o homem busca o dom\u00ednio dos elementos como a terra e o fogo, possibilitando o surgimento da cer\u00e2mica. A cer\u00e2mica, por sua vez, cumpre seu papel na forma de utens\u00edlios, permitindo que o homem possa viver em sua pr\u00f3pria realidade, economizando esfor\u00e7os e tempo, assegurando o seu bem-estar.<\/p>\n<p>Segundo Ortega y Gasset, n\u00e3o existe homem sem t\u00e9cnica mas a forma com que ele se relaciona com ela mudou com o tempo. Quando o homem descobriu a cer\u00e2mica, usando a chamada t\u00e9cnica do acaso, ele ignorava a pr\u00f3pria t\u00e9cnica como tal. O homem estava imerso quase totalmente na natureza e quando descobria uma forma nova de intera\u00e7\u00e3o com as coisas, experimentava a \u201cimpress\u00e3o do oba!\u201d, n\u00e3o reconhecendo a sua inven\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, n\u00e3o existia a especializa\u00e7\u00e3o do ato e todos da comunidade compartilhavam as mesmas fun\u00e7\u00f5es. Assim, a cer\u00e2mica surgiu como resultado da t\u00e9cnica mas operada pelo acaso e evoluiu com o tempo para ser usada de forma mais consciente na tentativa de tentar melhor controlar os elementos em seu ato produtivo.<\/p>\n<p>Rhodes ressalta que a argila, embora abundante, \u00e9 um elemento &#8220;temperamental&#8221;. \u00c9 male\u00e1vel quando molhada, mas ao secar torna-se fr\u00e1gil, quebradi\u00e7a e quando queimada, encolhe, gerando com isso todos os tipos de problemas para o ceramista. A queima \u00e9 descrita pelo ceramista ingl\u00eas Bernard Leach como uma batalha pois as chamas do fogo tem os seus caprichos e o ceramista precisa o tempo todo manej\u00e1-la adequadamente para que se tenha o m\u00ednimo poss\u00edvel de perdas. De Waal descreve o momento em que foi a um antigo local de produ\u00e7\u00e3o de cer\u00e2mica, perto da cidade chinesa de Jingdezhen que, desde a antiguidade, \u00e9 uma importante produtora mundial de porcelana:<\/p>\n<blockquote>\n<p>E debaixo dos pneus de nosso carro, em meio \u00e0s ervas daninhas, h\u00e1 caixas refrat\u00e1rias quebradas, marrons e pretas, vasilhas de barro \u00e1speras com bordas altas e doze, quinze cent\u00edmetros de di\u00e2metro, E cacos, p\u00e1lidas meias-luas de porcelana na terra vermelha. Pego o primeiro: \u00e9 a base de uma ta\u00e7a de vinho do s\u00e9culo XII, uma haste fina e pontiaguda segurando um bojo trincado, o di\u00e2metro tamanho de um polegar. \u00c9 inacreditavelmente fina. E nem um pouco branca &#8211; \u00e9 de um leve azul c\u00e9ladon aguado, com uma teia de rachaduras marrons no ponto onde centenas de anos de solo mancharam.<br \/>Este \u00e9 o meu momento graal, e a seguro com rever\u00eancia. Todos riem de mim e da minha epifania rid\u00edcula, pois adiante h\u00e1 uma encosta s\u00f3 de cacos, uma paisagem de quebraduras, um dicion\u00e1rio que cont\u00e9m todas as formas poss\u00edveis de como potes podem dar errado. N\u00e3o se trata de um monte de despojos discreto, apesar de descuidado. Pelo contr\u00e1rio: \u00e9 uma paisagem inteira feita de porcelana.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E assim, por s\u00e9culos, os ceramistas tentaram mitigar os problemas decorrentes do processo de cria\u00e7\u00e3o de suas pe\u00e7as, acumulando conhecimentos sobretudo atrav\u00e9s de tentativa e erro, formando o seu repert\u00f3rio t\u00e9cnico que foi transmitido at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p>Boa parte do processo produtivo que usamos hoje na cer\u00e2mica em nossos ateli\u00eas vem de uma \u00e9poca na qual era empregada o que Ortega y Gasset classificou de a &#8220;t\u00e9cnica do artes\u00e3o\u201d. Nela, os homens, embora se percebessem distintos da natureza, tinham uma intera\u00e7\u00e3o profunda e sustent\u00e1vel com ela, se inspirando e retirando somente o que lhe era necess\u00e1rio. Nessa fase, o instrumento \u00e9 o complemento do homem e n\u00e3o existia a m\u00e1quina como dispositivo de cria\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, o homem era o protagonista no ato de produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, ele era o respons\u00e1vel tanto pela concep\u00e7\u00e3o (mechan\u00e9) quanto pela execu\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havendo nessa fase uma divis\u00e3o entre os dois.<\/p>\n<p>A partir desta \u00e9poca podemos perceber a especializa\u00e7\u00e3o das atividades e suas t\u00e9cnicas. Havia, portanto, a figura do ferreiro, sapateiro, ceramista, etc. Apesar do uso da t\u00e9cnica, n\u00e3o havia a consci\u00eancia da t\u00e9cnica como uma entidade em si. O que existia nesta \u00e9poca, entretanto, era a ideia de que certos homens possu\u00edam habilidades naturais para desempenharem certas fun\u00e7\u00f5es espec\u00edficas. Apesar da percep\u00e7\u00e3o da \u00e9poca de que o ato do artes\u00e3o n\u00e3o pertencer ao mundo natural, sua t\u00e9cnica lhe era fixa sendo parte de sua natureza. Dessa forma, surgiu o termo grego techn\u00e9 que vinha deste \u201csistema fixo das artes, que \u00e9 como s\u00e3o chamadas as t\u00e9cnicas entre os povos dessa \u00e9poca\u201d.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o do conhecimento dentro de um determinado of\u00edcio ocorria via mestre-aprendiz. Neste modelo, o saber era repassado para o disc\u00edpulo conforme ele cumpria as tarefas na oficina de trabalho. Inicialmente, o disc\u00edpulo come\u00e7ava pelas tarefas mais pesadas como a limpeza, coleta de argila e da lenha etc. S\u00f3 depois que ele dominava estas atividades, ele aprendia a fazer a moldagem e a esmalta\u00e7\u00e3o, que eram as etapas mais \u201cnobres\u201d do trabalho com a cer\u00e2mica. Assim, s\u00f3 depois de muito tempo de trabalho sob a r\u00edgida supervis\u00e3o do mestre que o aprendiz poderia desenvolver sua pr\u00f3pria linguagem, tornando ele pr\u00f3prio um mestre-ceramista.<\/p>\n<p>Um exemplo da conviv\u00eancia entre mestre e aprendiz est\u00e1 retratado no romance de Park, \u201cPor um simples peda\u00e7o de cer\u00e2mica\u201d. A hist\u00f3ria se passa em um vilarejo de ceramistas na Coreia do s\u00e9culo XII e conta a hist\u00f3ria de um garoto \u00f3rf\u00e3o (Orelha-de-pau) que, fascinado pela obra de um ceramista local, se prop\u00f5e a trabalhar para ele. Orelha-de-pau realiza os trabalhos que o mestre o mandava fazer. Eram tarefas pesadas que n\u00e3o satisfaziam o menino, pois seu desejo era de aprender as t\u00e9cnicas de moldagem no torno. O desafio do menino era conquistar a confian\u00e7a do seu mestre atrav\u00e9s da obedi\u00eancia das r\u00edgidas regras do aprendizado para alcan\u00e7ar seu lugar como um ceramista. \u00c9 pelo caminho da humildade e persist\u00eancia que o menino vai conseguindo deixar de ser um participante passivo no processo e se emancipando como criador.<\/p>\n<\/p>\n<h2>A Quest\u00e3o Moderna da T\u00e9cnica<\/h2>\n<\/p>\n<p>Hoje em dia, a ci\u00eancia consegue explicar minuciosamente os processos qu\u00edmicos e f\u00edsicos envolvidos na produ\u00e7\u00e3o da cer\u00e2mica. Isso tem levado ao refinamento t\u00e9cnico sobretudo na ind\u00fastria no intuito de diminuir as perdas e otimizar ao m\u00e1ximo sua produ\u00e7\u00e3o. Entretanto, o ceramista artesanal v\u00ea com certa desconfian\u00e7a o envolvimento do tecnicismo com o seu trabalho. Isso porque, como vimos, a base existencial da cer\u00e2mica \u00e9 a conex\u00e3o subjetiva entre ela e o modo de vida de quem as produz ou usa e a ci\u00eancia, voltada mais para o campo objetivo-materialista, deturpa essa rela\u00e7\u00e3o. Rawson escreve que &#8220;Embora a cer\u00e2mica deva ser baseada em algum tipo de tecnologia, se for uma boa cer\u00e2mica, sempre escapa \u00e0 tirania de sua tecnologia\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, vivemos uma fase que emprega o que Ortega y Gasset chama de a &#8220;t\u00e9cnica do t\u00e9cnico\u201d. Nesse per\u00edodo, o homem \u201cvive com f\u00e9 na t\u00e9cnica e s\u00f3 nela\u201d. Ela toma tal import\u00e2ncia para n\u00f3s que n\u00e3o conseguimos mais limit\u00e1-la. Seu poder de fazer tudo desencadeia um esvaziamento da nossa vida, pois por poder tudo imaginarmos, esquecemos das nossas pr\u00f3prias prioridades existenciais. Al\u00e9m disso, por conta dessa rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia com a t\u00e9cnica, h\u00e1 um distanciamento tal com natureza que n\u00e3o podemos mais viver nela, n\u00e3o havendo mais consci\u00eancia de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, com a inven\u00e7\u00e3o da m\u00e1quina o homem torna-se um coadjuvante na manufatura e quando ele participa ativamente no processo, existe uma separa\u00e7\u00e3o entre a atividade do t\u00e9cnico (o engenheiro) e a do trabalhador. Al\u00e9m disso, o t\u00e9cnico dedica-se a inventar e \u201cdiferente homem primitivo, antes de inventar, ele sabe que pode inventar, isto equivale a que, antes de ter uma t\u00e9cnica, ele tem a t\u00e9cnica\u201d. A partir de ent\u00e3o, h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que \u201cas t\u00e9cnicas s\u00e3o apenas concretiza\u00e7\u00f5es a posteriori da fun\u00e7\u00e3o geral do homem\u201d. O m\u00e9todo intelectual que resulta deste racioc\u00ednio, o tecnicismo, \u00e9 essencial para a cria\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica como uma atividade aut\u00f4noma mas pode deixar o inventor \u00e0 deriva na pr\u00f3pria falta de limites de sua imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/p>\n<h2>Conclus\u00e3o<\/h2>\n<\/p>\n<p>Resumindo, existe na base existencial da cer\u00e2mica uma uni\u00e3o entre seu aspecto funcional, simb\u00f3lico e est\u00e9tico. Embora a argila seja um material natural, a cer\u00e2mica, por ser inventada pelo homem, permitiu que ele pudesse ver a sua obra a partir de um ponto de vista distinto do mundo natural. Al\u00e9m disso, esse processo de diferencia\u00e7\u00e3o permitiu que ele se visse no seu trabalho como um reflexo das realidades de seu mundo interno. Os objetos cer\u00e2micos surgiram primordialmente para o seu uso no dia a dia. Possuem, assim, desde as suas origens, uma fun\u00e7\u00e3o espec\u00edfica mas tamb\u00e9m s\u00e3o o fruto da express\u00e3o de valores subjetivos e simb\u00f3licos de seus criadores. Por isso, al\u00e9m de sua fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria, podemos caracteriz\u00e1-los como objetos carregados de conte\u00fados simb\u00f3licos. A partir dessa rela\u00e7\u00e3o, uma est\u00e9tica pr\u00f3pria foi desenvolvida que refletisse essa intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre a quest\u00e3o da t\u00e9cnica e a liberdade criativa, hoje em dia \u00e9 comum designarmos &#8220;ateli\u00ea de cer\u00e2mica artesanal\u201d como o local de trabalho do ceramista. Esta designa\u00e7\u00e3o une duas formas de cria\u00e7\u00e3o distintas: o ateli\u00ea nos remete ao espa\u00e7o onde o artista \u00e9 privilegiado com a total liberdade no processo de express\u00e3o criativa; a outra forma vem do artesanato que, como vimos, possui regras r\u00edgidas de repasse dos conhecimentos t\u00e9cnicos e, de certa maneira, limita a criatividade dos seus criadores. Isso mostra uma dualidade e levanta a quest\u00e3o entre a base t\u00e9cnica da cer\u00e2mica e a liberdade criativa dentro deste meio. Al\u00e9m disso, a posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica da t\u00e9cnica na atualidade coloca o ceramista em uma posi\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o e ela.<\/p>\n<p>Assim, a cer\u00e2mica \u00e9 um campo repleto de dualidades: liberdade e tradi\u00e7\u00e3o, t\u00e9cnica e criatividade, simbolismo e funcionalidade. Como poderemos conciliar e tomar proveito dessas tens\u00f5es essa \u00e9 um campo f\u00e9rtil de investiga\u00e7\u00e3o para o ceramista contempor\u00e2neo.<\/p>\n<\/p>\n<h2>Fontes:<\/h2>\n<\/p>\n<ul>\n<li>Ortega y Gasset: Medita\u00e7\u00e3o sobre a T\u00e9cnica<\/li>\n<li>Edmund de Waal: O Caminho da Porcelena<\/li>\n<li>Erich Neumann: A grande m\u00e3e: um estudo hist\u00f3rico sobre os arqu\u00e9tipos, os simbolismos e as manifesta\u00e7\u00f5es femininas do inconsciente<\/li>\n<li>Philip Rawson: Ceramics<\/li>\n<li>Linda Sue Park: Por um simples peda\u00e7o de cer\u00e2mica<\/li>\n<li>Daniel Rhodes: Clay and glazes for the potter<\/li>\n<\/ul>\n<p>Your Content Goes Here<\/p>\n<\/div><\/div><\/div><\/div><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":1,"featured_media":16039,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,4,6],"tags":[788,23,49,789,790],"class_list":["post-15749","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-curiosidade","category-historia","tag-bases","tag-ceramica","tag-estetica","tag-simbolismo","tag-tecnica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15749","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15749"}],"version-history":[{"count":32,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15749\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16041,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15749\/revisions\/16041"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15749"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15749"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/gustavoassisceramicas.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15749"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}